segunda-feira, 1 de junho de 2015

O risco do macarthismo no futebol ou patrocinador não é sócio, é só patrocinador

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Nos anos 50 o senador americano Joseph McCarthy desencadeou uma campanha contra comunistas reais ou imaginários (na verdade, todos imaginários). Em sua visão distorcida e doentia, os denunciados estariam espionando para a URSS ou tramando para tomar conta do governo dos Estados Unidos. Essa campanha, que destruiu muitas vidas, inclusive no mundo artístico, foi a representação perfeita de uma caça às bruxas, tal como na Idade Média ou em Salem, séculos mais tarde. Um dos piores e mais característicos pontos do macarthismo, tanto o original como as muitas cópias que se seguiram, geradas por esquerdas e direitas, é atropelar, é ignorar os mínimos direitos dos perseguidos, postura que se choca frontalmente com o que há de mais básico na democracia.

A prisão de José Maria Marin, ex-presidente e vice-presidente afastado da CBF, serviu como gatilho natural para questionamentos à CBF e sua conduta. Na verdade, isso não chega a ser novo, é apenas um recrudescimento do que já acontecia.  
Como disse em post anterior, há muita água para rolar por sob essa ponte. As autoridades policiais e judiciárias dos Estados Unidos estão em plena investigação das muitas ligações entre os dirigentes já presos ou denunciados e inúmeros outros membros do grande mundo do futebol, em pelo menos três continentes.

Com tudo isso acontecendo, é perfeitamente natural que muitas suspeitas recaiam sobre a CBF e seus dirigentes passados e presentes. Dentro dessa onda, inclusive, uma nova e oportunista CPI foi criada a toque de caixa no Senado da República e rapidamente conseguiu as assinaturas à sua instalação. Velocidade e assinaturas que não foram conseguidas para criar uma CPI infinitamente mais importante para o país há poucos dias (sobre as operações do BNDES). Curiosamente. Ou não.
Enfim, tudo muito natural, como disse. São alguns dos muitos efeitos colaterais do cataclisma de 27 de maio.

Nesse momento, porém, somando-se a tudo isso, vejo com triste surpresa que uma caça às bruxas começa a se desenhar no futebol do Brasil, usando como gatilho as prisões de Zurique. Os alvos passam a ser as empresas que patrocinaram e ainda patrocinam a Seleção Brasileira de Futebol.
Nada existe de natural em associar essas empresas ao mar de lama em crescimento.
Elas não são sócias da CBF, são apenas patrocinadoras da Seleção Brasileira, que, jurídica e legalmente “pertence” à Confederação Brasileira de Futebol.
Ao assinarem contratos de patrocínio com a Confederação, cada uma das empresas sempre teve em mente associar sua imagem à Seleção Brasileira. Lembrando que, ao contrário do que ocorre com a Espanha, por exemplo, a grande e quase única imagem do futebol brasileiro no mundo inteiro é a da Seleção e não de um ou dois ou mais clubes.
Nesse ano, nada menos que doze grandes empresas brasileiras e multinacionais patrocinam a CBF ou a Seleção, tanto faz – a ordem dos fatores não altera o produto. Em boa parte, esse é, ainda, um saldo do crescimento dos patrocínios motivados pela realização da Copa do Mundo no Brasil, no ano passado.

Temos, ainda, a patrocinadora e fornecedora de uniformes, a americana Nike, que menciono à parte porque, aparentemente, pelo relatório inicial das autoridades americanas, foram levantadas suspeitas na investigação sobre esse patrocínio assinado já há vários anos. Nem por isso, entretanto, é correto assestar as baterias e começar a disparar em sua direção.

Ao patrocinar a Seleção, o que só é possível patrocinando a CBF, essas empresas querem reforçar sua imagem junto ao torcedor brasileiro e passar a mensagem, antes da Copa do Mundo, que acreditavam e estavam ao lado da Seleção na disputa da Copa. Ao manter o patrocínio, elas mantêm a mensagem de apoio à nossa Seleção.
Nossa Seleção, sim, embora propriedade formal da Confederação.

Esses patrocínios são ações comerciais, são ações de marketing e comunicação mercadológica das empresas e de forma alguma as transformam em sócias da Confederação.

Porque patrocinador não é sócio de quem patrocina.
A Petrobras nunca foi sócia da Equipe Williams, apesar de patrocina-la durante anos.
A CEF não é sócia dos clubes que patrocina.
A General Motors não é sócia do Manchester United, como tampouco o foi a AON.
E os patrocinadores da Seleção Brasileira não são sócios da CBF.


Paixões extremadas podem levar à intolerância e a acusações ou ilações que prejudicam pessoas e empresas. Especialmente em momentos de crise, deve-se tomar muito carinho com as palavras e os atos, para não correr o risco de cometer injustiças.
Basta ver a história e as consequências da campanha encetada por Joseph McCarthy.

Emerson Gonçalves-Globo.com

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