As baladas nas folgas dos jogadores, que disputarão a inédita medalha de ouro, estão liberadas. Já começaram. Neymar sucede Ronaldo e é o grande anfitrião. Se Felipão, Parreira e Dunga não proibiram, Micale não tem como dizer ‘não’…
Gabriel vai entrando no táxi em frente ao hotel Alpha Park, em Goiânia. Era sábado à noite, o Brasil havia vencido o Japão por 2 a 0.
Um fotógrafo de jornal se aproxima e tira vários fotos. O jogador do Santos se irrita e, ríspido, pergunta. "Por quê está me fotografando, por quê?"
"Porque você é meu ídolo. Quero fazer um quadro enorme e deixar na minha sala", devolve, irônico, o fotógrafo.
Gabriel bate a porta do táxi e vai embora.
O atacante estava desconfiado. Queria sair discretamente. Estava indo para uma festa em um condomínio fechado. Em uma mansão cedida a Neymar. Ele foi o anfitrião da farra até altas horas da madrugada. Vários jogadores da Seleção Olímpica estiveram como o 'presidente', apelido do atacante do Barcelona.
Ele herdou o apelido e o gosto pelas farras enquanto a Seleção disputa torneios importantes com seu mentor Ronaldo Fenômeno. Como Neymar, ele era o guia das farras da Seleção Brasileira na Copa do Mundo da Alemanha.
Parreira dava a liberdade que, depois dos jogos, os jogadores se esbaldassem até às cinco da manhã. Em plena Copa do Mundo. Era a senha para Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho, Adriano e Roberto Carlos se esbaldarem até o último minuto da folga.
Virados, depois de uma noite na farra, com mulheres e bebidas, dormiam o dia seguinte todo. O resultado foi a eliminação precoce nas quartas de final contra a França. Era o fim do Brasil com seu 'quadrado mágico'. Até hoje, Kaká lamenta o que seus companheiros fizeram. Acredita que a conquista da Copa foi desperdiçada.
Irritado com as festanças, Ricardo Teixeira baniu Ronaldo Fenômeno das convocações. Acabou Seleção Brasileira para ele.
O Brasil nunca conquistou uma medalha de ouro. Se tudo der certo, da preparação até a disputa do título, serão 34 dias até a consagração. Será que é pedir muito que os jogadores mantenham o foco, a concentração para não só realizar o sonho como fazer renascer a confiança dos torcedores?
Para a Comissão Técnica da Seleção parece que sim. Sábado foi a segunda folga que os jogadores tiveram em 12 dias de preparação. Haverá mais durante a própria Olimpíada. Neste mesmo esquema. Após a partida, os atletas ficarão liberados até a manhã do dia seguinte.
É algo que os atletas não abrem mão. Mesmo como os treinamentos intensos, pesados, tentando, de qualquer maneira, apressar o entrosamento do time para a Olimpíada. O que é uma tarefa árdua, muito difícil. Só que, se nem Felipão, Parreira e até Dunga não tiveram condição de dizer não, não seria Rogério Micale que negaria as noitadas.
A situação já virou 'cultural', inerente aos brasileiros. Treinador algum consegue impor um regime de concentração fechado.
O ex-coordenador da Seleção Brasileira, Gilmar Rinaldi, já havia previsto folga para os jogadores que disputam a Olimpíada. Se Dunga não tivesse sido demitido, depois do vexame na Copa América Centenário, o esquema que Micale adota seria o mesmo.
Gilmar acreditava que os atletas, ainda mais jovens, precisam ter folgas para aliviar a pressão da conquista obrigatória da medalha de ouro. Considera ser negativo segurá-los concentrados por 34 dias. E a programação foi mantida para a nova Comissão Técnica.
Tite e Edu Gaspar também dão seu aval para as folgas. Eles coordenam todo o trabalho de Rogério Micale. Ou seja, as farras são previstas e autorizadas.
A reação de Gabriel é compreensiva. Embora tenham o aval dos treinadores e aconteçam nas folgas dos atletas, grande parte da opinião pública não concorda com esses festins que varam a noite. Torcedores acreditam ser descabidos, ainda mais durante competições tão importantes quanto Copa do Mundo ou Olimpíada.
A festa em Goiânia foi em um condomínio de alto luxo. E vedada a presença de jornalistas. Tudo acabou combinado em segredo pelos jogadores. Só que no dia seguinte, ela acabou vazando. Taxistas contavam para jornalistas que haviam levado os atletas até o Alphaville, bairro nobre da capital de Goiás.
O Brasil terá uma tabela apertada na primeira fase da Olimpíada. Estreia na quinta-feira, contra a África do Sul. No domingo, o adversário mais fraco, o Iraque. Os dois jogos aqui em Brasília. E na outra quarta-feira, dia 10, o adversário será a Dinamarca, em Salvador.
Se o Brasil for o primeiro colocado do grupo, voltará a campo dia 13, em São Paulo. Se for segundo, atuará no mesmo dia, em Salvador. Caso chegue à semifinal, como primeiro da fase de classificação, atuará no Rio, dia 17. Se conseguiu a semi como segundo, jogará também no dia 17, só que em Belo Horizonte. A final está marcada para o dia 20, no Rio. A decisão da medalha de bronze, no mesmo dia, mas em Belo Horizonte.
Ou seja, tudo muito apertado. Mas haverá folga sim. A CBF não divulga. Mas se tudo correr dentro do previsto, passar como primeiro na fase de grupos e vencer a partida das quartas, em São Paulo, os atletas deverão ser liberados em seguida. Para uma noitada antes da semifinal, já que há quatro dias entre um jogo e outro.
Lógico que médicos, preparadores físicos e nutricionistas consideram um absurdo atletas do mais alto nível perder noite de sono, beber e farrear até amanhecer. Isso em plena competição importantíssima.
A Alemanha, por exemplo, deu folga a seus atletas durante a Copa. Mas como estavam isolados em um resort na Bahia, os solteiros não tinham grandes farras. Os casados foram liberados para dormirem com suas esposas. A grande atração era conhecer pela manhã praias novas, isoladas. Ou jogar basquete ou ficar na piscina descansando.
É uma questão de filosofia.
Quanto a Neymar, sem surpresa. Os treinadores da Seleção Brasileira sabem que, desde Romário, a grande estrela, quando gosta de farrear, costuma ser o anfitrião para as festas nas folgas.
Durante a Olimpíada será a mesma coisa.
Nada surpreendente.
"Vou continuar vivendo a minha vida como eu quiser. E vou continuar indo para a balada, sim. Eu posso.
"Quando estou fora do campo, independentemente de qualquer coisa, é minha vida particular. Tem que me cobrar dentro de campo, não tenho problema nenhum em falar sobre cartões, expulsões. Tenho vida particular, sou um cara de 24 anos."
As respostas de Neymar deixam claro o que pensa.
As baladas vão continuar na Seleção Olímpica.
Com a devida autorização de Micale.
É uma questão de DNA.
Dos jogadores.
E dos treinadores deste país.
Portanto Gabriel, não precisa se irritar.
Ser flagrado indo para a balada não é pecado.
Não neste país.
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