A falta de rumo do Cruzeiro. De bicampeão brasileiro a penúltimo do Brasileiro. 85 jogadores e seis técnicos desde 2012. Por isso, Mano, que abandonou o clube, volta como ‘salvador’…
Nunca em sua carreira de 19 anos, Mano Menezes foi recebido como herói. Jamais torcedores ficaram maravilhados ao vê-lo, ao escutá-lo. O que aconteceu no aeroporto de Confins tem várias leituras.
Mas todas elas apontam para o básico. Medo do rebaixamento para a Série B do Campeonato Brasileiro. A situação é dramática. O clube é penúltimo colocado, com apenas 15 pontos em 16 partidas. Soma quatro vitórias, três empates e nove derrotas.
Os três últimos adversários para terminar o primeiro turno são Santos na Vila Belmiro, Internacional, no Mineirão, e Corinthians, no Itaquerão.
Mas nada é por acaso. Para Mano Menezes, demitido do Shandong Luneng, depois de apenas 21 jogos, ser saudado como 'salvador' é porque há algo muito errado na Toca da Raposa. Ou mais propriamente, na sala do presidente do clube.
É inacreditável a decadência do trabalho de Gilvan Tavares. Ele havia começado muito bem, investindo em Marcelo Oliveira e um trabalho de observação de atletas impressionante. Com a ajuda de Alexandre Mattos, o clube montou um elenco que ressuscitou várias carreiras. E conseguiu a conquista do bicampeonato brasileiro.
Os erros começaram quando Gilvan acreditou que poderia liberar Mattos para o Palmeiras. Além da perda do executivo, o presidente decidiu aproveitar o assédio sobre os jogadores bicampeões do país. E promoveu um deprimente desmanche.
Justo quando a equipe estava no seu melhor momento. Pronta para brigar de verdade pelo da conquista da Libertadores de 2015. O clube, com Tavares, repetia uma triste fórmula cruzeirense imposta pela família Perrella. A de vender indiscriminadamente os atletas. A partir daí, a decadência veio forte. Inclemente.
A Libertadores foi para a lata do lixo. Marcelo demitido. Gilvan teve a coragem de contratar o ultrapassado Vanderlei Luxemburgo. Ele afundou o clube, o deixou no caminho do rebaixamento. Foi quando colecionou mais uma demissão. Veio Mano Menezes e conseguiu recolocar o time nos trilhos.
Depois de desprezar escolhas dos que iam trabalhar na China, Mano não resistiu a R$ 2 milhões mensais. Virou as costas ao planejamento de montar um grande Cruzeiro. Indicou o novato Deivid. Foi um fracasso. Depois, a diretoria só pensou no status e contratou o português Paulo Bento, que não conhece o futebol brasileiro. Mais derrotas e constrangimento.
Outra vez o clube estava no caminho da Segunda Divisão. Por isso, os dirigentes engoliram o orgulho. E decidiram buscar o homem que havia trocado a Toca da Raposa por dinheiro. E Mano está de volta, com contrato assinado até o final de 2017. Ou até chegar uma proposta maior financeira.
Isso tudo já foi mais do que explorado. O que precisa ser trazido à tona é mais profundo. Como o Cruzeiro chegou a esta situação. Basta analisar com calma as atitudes de Gilvan.
Desde que o presidente assumiu, em 2012, foram nada menos do que 85 atletas. E teve seis técnicos. Marcelo Oliveira, Vanderlei Luxemburgo, Mano Menezes, Deivid, Geraldo Delamore e Mano Menezes, de novo.
A falta de rumo é algo lastimável.
O clube que dominou o Brasil entre 2013 e 2014 degringolou.
E abre espaço para o retorno de Zezé Perrella.
O senador e líder da Bancada da Bola, defensor da CBF, com métodos mais do que ultrapassados quer a popularidade do Cruzeiro, de novo.
Gilvan, que foi seu braço direito por décadas, não queria o retorno. Só que suas decisões em relação ao futebol seguem sendo uma pior do que a outra.
Conselheiros cruzeirense não se esquecem da atitude de Mano Menezes. Pouco importa se ele levou o dinheiro dos chineses para pagar sua multa rescisória. Ele havia empenhado a palavra que montaria o time para 2016. Gilvan tinha até reservado dinheiro para grandes contratações.
O pior. Além de sua opção pelos chineses, Mano convenceu Tavares que Deivid estava pronto para assumir o time. O presidente percebeu o erro desde o começo. E por isso não investiu. Não colocou dinheiro para contratar jogadores caros, escolhidos pelo jovem técnico.
E quando decidiu abrir o cofre para Paulo Bento, o português estava mais do que perdido. Além de desconhecer o futebol brasileiro, com seu calendário massacrante, não tinha ideia dos atletas que poderia indicar para serem contratados.
Acabou aceitando aqueles que os dirigentes escolheram.
Tudo muito amador, que não combina com grandeza cruzeirense.
Mano Menezes estava no Caribe, curtindo férias, gastando um pouco dos milhões que ganhou da rescisão na China. Foi mandando embora depois de colocar o Shandong Luneng na penúltima colocação do torneio nacional. O que foi considerado uma desonra para o rico clube.
Não há a menor perspectiva de título nacional. Nem uma vaga para a Libertadores de 2017. Nem mesmo na Copa do Brasil. A missão de Mano Menezes é clara. Evitar a Segunda Divisão. É tudo o que Gilvan implora.
O treinador recebia R$ 400 mil mensais quando foi para a China. Conselheiros garantem que o salário é o mesmo. Ainda assim, um dos maiores da América do Sul.
A diretoria irá arcar com a multa rescisória de Paulo Bento.
Mas isso não preocupa Gilvan.
Ele não quer é ver o Cruzeiro rebaixado.
As eleições presidenciais estão marcadas para 2017.
Se o clube estiver na Série B, será fácil demais para Perrella.
É tudo o que o atual presidente teme.
Por isso já avisou a Mano Menezes.
Ele terá tudo o que quiser.
Se precisar de mais jogadores, basta pedir.
Para quem já contratou 85, mais três ou quatro nada significam.
E vai seguir pagando dois treinadores.
Os R$ 300 mil de Paulo Bento e mais R$ 400 mil a Mano...
É uma pena a decadência cruzeirense.
De bicampeão brasileiro a ameaçado pelo rebaixamento.
Uma vez, acontece.
Mas duas, em seguida, é inaceitável.
A primeira declaração de Mano Menezes em Confins.
"Todas as vezes que o Cruzeiro precisar, digo sim."
A não ser que chegue um clube chinês.
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