quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Brasil obtém R$ 565 milhões na balança comercial do futebol – onde está o dinheiro?

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RODRIGO CAPELO

O futebol brasileiro faturou 500% mais com exportações de atletas do que gastou com importações, mas a verba seca antes de chegar aos clubes mais pobres do país


Futebol: fábrica de ilusões (Foto: Arte ÉPOCA)
As chuteiras pretas de cravas metálicas e a camisa da Seleção Brasileira, de quando o escrete nacional ainda levava o escudo da Confederação Brasileira de Desportos (CBD), são de Pelé. O contrato com número de registro 61.284 tinha três anos de vigência, mas isso, em 1960, quase não importava. Edson Arantes do Nascimento ficou 18 anos no Santos. Mudou-se para o New York Cosmos só no fim da carreira, em 1975. Os tempos mudaram. No período entre Pelé e outro santista, Neymar, dos anos 2010, o Brasil se tornou o maior "exportador" de "pé-de-obra" do mundo. Ninguém veste as mesmas cores por 18 anos, atletas vão embora ainda adolescentes, à procura de oportunidade, e transferências viraram torneiras de dinheiro.
Eis alguns números da CBF, revelados por ÉPOCA com exclusividade, que explicam como o mercado de transferências internacionaisfunciona no Brasil. Em 2015, o país "exportou" 1.212 atletas, dos quais 771 profissionais, 232 amadores e 209 profissionais que topam deixar clubes profissionais brasileiros para jogar em amadores estrangeiros – por aí se vê quão degradado está o mercado nacional. Só houve dinheiro em 99 vendas. Todas as demais trocas de território saíram de graça para o cartola gringo. Por meio das 99 transações, entraram R$ 679,7 milhões nas contas bancárias dos clubes brasileiros. A média é de R$ 6,8 milhões obtidos para cada jogador vendido.
No mesmo ano, o Brasil "importou" 648 jogadores – 580 profissionais e 68 amadores. Ninguém de fora esteve disposto a encarar a várzea tupiniquim. Aquele argentino que teu time contratou para engrossar a zaga entra nesta conta. O lateral uruguaio, também. Eles e todos os outros vêm ao Brasil atrás de salários um pouco maiores do que em seus países, geralmente desvalorizados por moedas mais fracas do que o real. Só que apenas 15 foram efetivamente comprados por cartolas brasileiros. A soma dá R$ 114,3 milhões. Quer dizer que, quando um dirigente compra os direitos econômicos de um hermano ou outro gringo qualquer, gasta em média R$ 7,6 milhões.
A balança comercial do futebol brasileiro em 2015 (Foto: Arte ÉPOCA)
Na economia, exportações e importações formam a balança comercial de um país. Governantes jogam com o câmbio, para tornar a moeda corrente mais ou menos valiosa perante o dólar, no intuito de fazer a balança ficar a seu favor. Com moeda desvalorizada, produtos ficam mais baratos para estrangeiros, as exportações aumentam, e a balança fica positiva. Esse tipo de jogada econômica tem como fim injetar dinheiro no sistema. Fazer o bolo crescer. O sujeito que vendeu o produto fatura mais, paga mais salários a funcionários, que compram mais produtos. A roda gira.
A economia do futebol, com uma balança comercial desta, deveria girar. O saldo em 2015 ficou R$ 565,4 milhões positivo, afinal. O futebol brasileiro exportou quase 500% mais do que importou. É evidente que os 99 jogadores vendidos por valores saíram majoritariamente dos clubes da elite nacional. Mas, num ecossistema saudável, o dinheiro deveria escorrer do topo para a base da pirâmide. Como uma torneira que irriga as raízes de uma árvore. O Fluminense, depois de vender o Gerson para a italiana Roma, usaria parte da grana para comprar um substituto no Criciúma, que por sua vez partiria para cima do XV de Piracicaba, que depois buscaria um atleta para reposição no Princesa de Solimões. Só que o ecossistema não é saudável. A roda não gira como deveria.
E se jogadores de futebol fossem commodities? (Foto: Arte ÉPOCA)
A economia agoniza quando dinheiro demais é jogado para fora dela. Cada centavo que um clube da primeira divisão desperdiça com juros de dívida bancária e empresário, que retém já na transferência uma parte dos louros a troco dos direitos econômicos que detém, representa dinheiro que não escorre para times intermediários, pequenos e nanicos. Da venda de Gerson para a Roma, Mário Bittencourt, vice-presidente de futebol do Fluminense, estima que 30% puderam ser reinvestidos na compra dos direitos de Henrique e Richarlison. O segundo, aliás, ex-América-MG, um dos que melhor sobrevive às custas das categorias de base. Os demais 70% foram usados para pagar contas do clube social e salários de atletas, claro, mas também para saldar dívidas deixadas por presidentes anteriores e para remunerar empresários. É dinheiro que poderia ter sustentado mais um América-MG. E este nem é o pior dos exemplos. Há quem jogue todo o dinheiro para fora do futebol por má gestão no passado.
Contribui para um ecossistema doente, também, o fato de 671 dos 771 clubes de futebol profissionais brasileiros fecharem as portas após campeonatos estaduais. Como não têm partidas no segundo semestre, mandam todo mundo embora. E aí não ficam com nenhum destaque para vender a um adversário mais endinheirado. Tampouco têm condições de manter categorias de base para achar e treinar jovens talentos. Isso fecha outra torneira: a dos mecanismos de solidariedade nacionais e internacionais que reservam ao formador um percentual sobre uma venda futura. Para times que já não têm receitas com direitos de TV, patrocínios ou sócios-torcedores, não ter arrecadação com transferências de jogadores é crítico. Isso ajuda a explicar por que 82,4% dos atletas em solo brasileiro ganham menos de R$ 1.000 mensais. O saldo positivíssimo da balança comercial do futebol brasileiro, por falhas no sistema no topo e na base, não chega a quem precisa dele.


"Dinheiro tem de ficar no clube, não com empresário", diz Reynaldo Buzzoni, da CBF


Diretor de registro e transferência da CBF explica como a entidade, a exemplo da Fifa, quer regulamentar intermediários no futebol


Futebol: fábrica de ilusões (Foto: Arte ÉPOCA)
Regulamentos, relatórios, registros. Dificilmente há nos três andares de sede da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), na Barra da Tijuca, um trabalho mais burocrático do que o de Reynaldo Buzzoni. Desde que chegou à diretoria de registros e transferências, ainda como interino com José Maria Marin, depois como efetivo quando Marco Polo Del Nero assumiu a presidência, o carioca de fala rápida implementou mudanças que alteram a estrutura do futebol.
Regulamento de Intermediários, Cadastro Nacional de Intermediários e Regulamento Nacional de Registro e Transferência de Atletas de Futebol são três das medidas. Elas obrigaram o famoso empresário de jogadores a se cadastrar na CBF e seguir regras. De uma lista nacional, em vez de um emaranhado de Decretos da Presidência (RDP) que valiam aqui, mas não ali. Depois, Buzzoni investiu em um novo sistema de TI e centralizou informações sobre registros. A entidade, que antes dependia das federações para ter dados sobre transferências, ficou independente para acessá-los.
Tudo isso parece burocracia, e é. Mas os efeitos práticos de empresários mais regrados e vigiados tendem a aparecer em alguns anos. O que a CBF quer, como a Fifa na esfera global, é evitar que agentes levem fatias obscenas de valores de transferências por deterem percentuais de direitos econômicos de jogadores superiores aos próprios clubes. Isso tende a fortalecer o time de futebol financeiramente. "O agente passa a ser um intermediário de uma negociação. A maioria deles ganha 10% do que o jogador vai auferir de salário. É ali que ele ganha dinheiro. Mas ele não pode ser dono do jogador. 50% do passe? Não existe isso", diz Buzzoni a ÉPOCA.
Foi a implementação dessas regras e sistemas de TI que permitiram à CBF diagnosticar com mais precisão o estado de saúde do futebol brasileiro. Os dados sobre faixas salariais de atletas e sobre abalança comercial dos clubes, revelados por ÉPOCA com exclusividade, puderam ser obtidos e consolidados depois que Buzzoni mexeu na estrutura da confederação. Os próximos objetivos vão, de novo, mexer no sistema. O diretor promete implementar assinatura digital e biometria para atletas no acerto de contratos, medidas para aumentar a confiabilidade dos documentos. Vai criar a Câmara Nacional de Resolução de Disputas, um órgão que vai mediar problemas relativos a transferências. Quer criar um núcleo de compliance, com a Fifa, para monitorar as transferências. E deve lançar novos regulamentos para registro e licenciamento de clubes, de modo que eles, como os empresários, também sigam regras.
ÉPOCA – Quais foram as medidas que sua diretoria tomou desde que chegou ao cargo?
Reynaldo Buzzoni –
 A primeira, mais importante, foi a publicação do Regulamento Nacional de Registro e Transferência de Atletas de Futebol. Quando eu assumi, a primeira coisa que levantei foi: cadê as regras de registro do Brasil? Não existia uma regra. Existiam várias. O que o pessoal dizia que era. A primeira medida foi criar um grupo de trabalho com diretores da casa, presidentes de federações, clubes, e fomos montando o regulamento. No começo de janeiro de 2015 implementamos e agora está em vigor. Foi um grande passo, o principal, eu acho, até hoje. Depois criamos o Regulamento de Intermediários, que também era um exigência da Fifa. E no início de janeiro de 2015 implementamos o novo Registro de Transferências Internacional na CBF.
ÉPOCA – O que a modernização do sistema de registro permitiu?
Buzzoni – 
O sistema era feito desde 2007 num sistema da CBF, mas ele era delegado às federações. Então a CBF tinha os dados, mas eram inconsistentes porque eram feitos dentro das federações. A gente não via documentos, não tinha nada. Então nós implementamos um novo sistema. Todos os clubes tiveram que se recadastrar, com envio de documentos, assinatura de presidente, atas de assembleia, e tudo passa pela CBF. Todos contratos que passam pelo sistema são aprovados pela CBF. Se foi no BID [Boletim Informativo Diário] é porque passou pela CBF. Antigamente, não.
ÉPOCA – As medições são olhadas de quanto em quanto tempo?
Buzzoni – 
Mês a mês. Mês a mês eu faço o relatório e passo para a presidência com quantos registrados, quantas transferências, médias de salários, quantos contratos estão ativos, clubes, quantos jogadores cada clube tem, qual o salário médio de cada clube.
ÉPOCA – 96% do futebol brasileiro ganham até R$ 5 mil. É muito mais grave do que a pessoas veem na televisão. Como a CBF vê a questão do salário no futebol?
Buzzoni –
 É a realidade do país, não é? Se você for ver a população fora do futebol, também, mais de 90% devem ganhar menos do que R$ 5 mil. O pessoal vê o futebol brasileiro e só acha que é Série A, os 20 maiores clubes, talvez os da B. A CBF trabalha com um universo de quase 1 mil clubes, 700 profissionais, 400 amadores. Quantos participam de competições da CBF: quase 100. Você tem quase 15% do mercado em competições nacionais.
ÉPOCA – O que precisa acontecer para o cenário melhorar?
Buzzoni – 
O país tem que melhorar. A economia tem que melhorar para eles poderem pagar melhores salários. Como é que um clube, fora esses que disputam competições nacionais, sobrevivem? Só com bilheteria. Um patrocínio ou outro. Como é que um clube da segunda divisão lá do Ceará sobrevive? Só com bilheteria, porque não tem televisão. Patrocínio? Pouco. A gente tem que ver se vale a pena ser um clube profissional ou se ele deveria ser um amador. Hoje a gente tem um registro que não existia CBF, o registro do amador, a vida histórica do jogador. Lá na frente se houver uma venda para o exterior ele tem um percentual do contrato de formação, do mecanismo de solidariedade. Tanto internacional quanto nacional. Criamos essa regra para que os clubes se beneficiem se no futuro um jogador vier a ter sucesso.
ÉPOCA – Há um excesso de clubes? 771 é muito?
Buzzoni –
 770 clubes é muito? É. Mas como você vai fazer para fomentar o futebol nisso? A CBF não tem como fomentar o Brasil inteiro. Por isso ela tem federações. Ela faz 14 competições, gasta mais de R$ 100 milhões por ano em competições, bancando as competições. A CBF só não banca a Série A, porque os clubes já recebem por isso. Mas Séries B, C, D é ela que banca, paga passagens, hospedagens, árbitros, doping. É o que o presidente Marco Polo diz. Ela só não paga salários, porque não tem como a gente fazer isso. Falta gestão. É o mercado.
ÉPOCA – Há um modo de ter calendário para todo mundo?
Buzzoni – 
Tem que ter Estadual? Tem que ter. Mas será que os grandes clubes têm que jogar o Estadual? A gente tem que entender. Tem que ter calendário para eles? Tem que ter. Mas quem tem que fazer calendário para eles são as federações. Elas que têm que fomentar o futebol no estado. A CBF é a entidade nacional. Ela faz os campeonatos nacionais, regionais. Mas não dá para ela fomentar o futebol em cada estado. Ela ajuda as federações para que fomente o futebol lá dentro.
ÉPOCA – Existe um movimento de os 27 presidentes, diretores, sentarem para debater? Ou hoje é cada um por si?
Buzzoni –
 Não, hoje é muito mais aberto, se debate muito. Estamos criando regras. Já temos um grupo de trabalho criando o Regulamento de Registro de Clubes. O que um clube precisa para ser profissional hoje? Não existe essa regra hoje. Cada federação fazia de uma forma. Em São Paulo, é lógico que se exige muito mais do que em Roraima. Então a gente está criando uma regra nacional para ter um mínimo para  ele ser profissional e ser filiado na CBF. Tem que ter infraestrutura, centro de treinamento, um estádio para jogar. Nem que não seja dele, mas seja arrendado. Categorias de base. Tem que ter. Por que estão morrendo, como o pessoal fala? Porque não tem categorias de base? Tem que ter. O cara para ser profissional vai ter que ter todos aqueles pontos. Vamos ver documentações, se estão corretas, competições que tenham áreas de inspeção vão ver se tem estrutura para ser profissional – tem centro de treinamento, tem estádio para jogar, tem vestiário? Requisitos mínimos para ser.
ÉPOCA – É o sistema de licenciamento?
Buzzoni –
 Não, esse é o sistema de registro. É a primeira etapa do licenciamento. Primeiro: para se registrar, se você quiser hoje montar um clube profissional, o que você precisa ter? Hoje não tem uma regra na CBF. Estamos criando. Precisa ter requisitos mínimos: questões jurídicas, estruturais e esportivas. A segunda etapa, que já estamos implementando e vamos soltar nos próximos dias, é a questão do licenciamento. Licenciamento é uma licença especial para participar das competições da CBF. Não é falar que a CBF vai matar os clubes. Não é isso. Quer jogar as competições da CBF? Quer jogar a Série A? Tem que ter balanço bem auditado, tem que ter índice de liquidez, tem que ter estrutura, teu estádio tem que ter tanto de capacidade, e aí você ganha licença para participar da competição. Séries A, B, C e D. Só que é um processo longo de implementação. A CBF tem um regulamento quase pronto disso e está montando a estrutura de como vai funcionar o processo. Qual vai ser o método de implantação. É o grande projeto da CBF hoje.
ÉPOCA – Nessa conta de quantos não se encaixariam, quantos são?
Buzzoni –
 Não temos ainda. Estamos começando o processo. Já temos o regulamento quase fechado. Pronto. Como é que são as regras para um clube se licenciar na CBF. Esse ponto já está pronto. Agora vamos para o segundo ponto, como vamos implementar isso. Treinamento, quais documentos vão ter que se mandados, financeiro. A gente teve uma reunião com diretor [de licenciamento e fair play financeiro] da Uefa, Andrea Traverso, que implementou isso na Uefa. Ele disse: é um processo de três, quatro anos. Só a parte financeira dele tem quase 100 páginas. A gente tem que estudar o que a gente vai exigir. Depois contratar uma auditoria para fazer diagnóstico. Quantos clubes na Série A estariam aptos a essa regra? Vamos implementar e mostrar que precisam se adaptar. No próximo ano, mostrar o que não fez. É gradativo.
ÉPOCA – Isso é uma questão de educação dos dirigentes. O que vocês vão fazer para instruí-los?
Buzzoni –
 Agora vamos mostrar que há regras. Vamos trazer os diretores de futebol e mostrar que tem regras. O jogador tem que entender que tem regras. Não adianta achar que é só jogar. Ele tem que saber que tem regras em termos de salário. Hoje há o grande problema dos direitos de imagem do Neymar. Tem 200 jogadores com problema. Tem. A receita está em cima por causa de direitos de imagem. Será que vale a pena? Será que o jogador sabe disso? O Regulamento de Registro e de Intermediários tem punição para jogador. Ele tem que entender que não pode ficar pulando de clube em clube, fazendo ponte, porque senão pode ser punido. Estamos criando esse ano a trava da ponte. Não sei que forma vamos fazer, mas tem que jogar esportivamente. Já implementamos que se o clube não joga competição profissional, não pode registrar contrato profissional.
ÉPOCA – A CBF tem autonomia para fazer isso nacionalmente em todos os clubes? Ou “esbarra” nas federações e não consegue chegar em estaduais?
Buzzoni –
 Em relação a participar da competição, fica específico às competições da CBF. Em relação a registro, não. Tudo o que é feito de registro no Brasil é feito pela CBF. Então tem que se adaptar ao regulamento da CBF. No mundo maravilhoso que a gente quer é criar o Regulamento de Licenciamento e que as federações passem a adotar isso também nos seus campeonatos. Para participar do estadual, tem que ter um mínimo do licenciamento. Agora, depende de cada federação. Não temos ingerência.
ÉPOCA – Vocês conseguem impor?
Buzzoni –
 É negociação. A gente sugere. Igual teve o caso que sugerimos às federações sobre a reeleição. Agora que colocamos que só pode ter uma reeleição. Nós sugerimos. Mas não temos ingerência para obrigar o cara a fazer. Só que o cara tem que ver que é uma realidade. É gestão, transparência, vamos mostrar os benefícios de eles implementarem isso.
ÉPOCA – O que te preocupa ao olhar para os números de transferências internacionais?
Buzzoni –
 O que me preocupa é que tem mais 500 jogadores que estão saindo daqui para jogar como amadores. Jogadores que são profissionais no Brasil. Sério que vai sair daqui para jogar um amador lá? Um número que assustou muito é o de pedido de jogadores, consulta por jogadores que não têm registro, quase 500 jogadores. A federação espanhola mandou carta para cá perguntando se a pessoa tem registro na CBF. A gente checa tudo, federação, e não tem. É alguém que imigrou, ou nunca jogou, a gente não sabe. A Fifa esteve aqui, e eu falei que estava preocupado. Preciso saber qual é a atitude que vamos tomar. O cara vem, pergunta, e a gente não sabe sobre a vida dele, do histórico. É brasileiro. Isso quase diariamente tem federação perguntando, principalmente Espanha e Portugal. Muito.
ÉPOCA – O futebol brasileiro tem uma balança comercial muito positiva. Num ecossistema saudável, o dinheiro escorreria pela cadeia. Mas ele não escorre. Por quê? Para onde vai o dinheiro?
Buzzoni –
 Acho que é má gestão, mas a gente ainda não consegue mapear. Estamos trabalhando para isso. A questão do intermediário ser cadastrado e ter Regulamento de Intermediário, não negociar com qualquer um, ajuda.
ÉPOCA – Como?
Buzzoni – 
O que eu falo muito do jogador também é que ele tem que saber que, para negociar com intermediário, tem que estar cadastrado na CBF. Não pode assinar um documento com qualquer um que diga que vai jogar no Barcelona. Tem que ver se aquele cara está registrado na CBF. O próprio clube, também. Com o fim do TPO [sigla em inglês para participação de terceiros em direitos econômicos], no ano passado, nós já exigimos, a Fifa exigiu. Hoje um problema sério é a janela. Se não tiver a declaração dizendo que não tem o jogador, a Fifa não deixa a transferência seguir. Muito jogador ficou parado por conta isso. Tem que ter a assinatura do clube anterior dizendo que não tem participação, o jogador tem que assinar dizendo que não tem participação. É uma regra que vamos implementar esse ano na CBF. O regulamento novo já tem isso. Porque não pode.
ÉPOCA – Qual o intuito desta mudança?
Buzzoni – 
O que é isso? O que a Fifa quer? A CBF? Fortalecer os clubes. Tem que ter empresário, intermediário? Tem, mas não pode ser dono do jogador. Dinheiro que tem que ficar no clube. Dinheiro não tem que ir para terceiros. O intermediário pode viver do futebol, mas não tem que ganhar só dinheiro do futebol. O dinheiro tem que ser do clube. Para que o clube invista de novo no futebol, que o dinheiro corra na cadeia. Contrata o outro, paga salário. Hoje ele faz uma negociação, 70% vai para o cara, não vai para o clube. O que adianta?
ÉPOCA – A CBF consegue mapear o caminho do dinheiro no futebol?
Buzzoni – 
Ainda não. O que aconteceu com esses R$ 600 milhões [do saldo positivo da balança comercial]? Será que tudo isso foi para os clubes? Não tenho como saber. Vai muito da informação. O que tenho aqui são dados que os clubes colocam. Se o clube não colocar o valor, não consigo saber. Não tenho como checar. Este ano estamos criando uma área de compliance com a Fifa para checar as transferências.
ÉPOCA – Mas qual será o modelo do intermediário? O direito econômico era a garantia que ele tinha para receber de volta o investimento dele.
Buzzoni – Ele tem uma participação. O agente passa a ser um intermediário de uma negociação. É isso. Tem um novo anexo no regulamento de TMS que é isso. Declaração de participação. Se eu sou empresário do Fernando, intermediário dele, e vou negociar com você, o clube, o contrato dele, sou intermediário dessa operação. Se ele vai ganhar um salário, está lá. A maioria deles ganha 10% do que o jogador vai auferir de salário. É ali que ele ganha dinheiro. Mas ele não pode ser dono do jogador. 50% do passe? Não existe isso. Quem investe é o clube. O que o intermediário investe? Quem investe é o clube, é o cara que dá treinamento, que dá alimentação, que dá medicina, e aí na hora de vender o cara leva 50%? Está errado. Ele não investe nada.
ÉPOCA – É uma hipótese real que o dinheiro vá embora por empresários, apesar de não termos dados sobre isso.
Buzzoni – Sim, claro. A Fifa baniu no ano passado e achamos que só vai terminar em três, quatro anos. Todos os contratos válidos, de até cinco anos, eles tinham até 31 de dezembro de 2014 para fazer. E o intermediário pode ser tanto do jogador quanto do clube. Não queremos acabar com intermediário, que ele não receba o dinheiro dele. Se eu sou intermediário, tenho um jogador e consigo um clube para ele, nada mais justo que eu ganhe. Se ele vai levar o jogador daqui para o Chelsea, ele negociou com o Chelsea e vai ganhar um percentual na transferência, é normal. A Fifa sugere 3%. Numa negociação de R$ 50 milhões, não está bom 3%?
ÉPOCA – Como a CBF vê o dado de 59% dos contratos não terem chegado a janeiro de 2016? É uma taxa de desemprego do futebol brasileiro, certo?
Buzzoni – 
Sim. Normalmente, os contratos são de três a quatro meses. Eles fazem por competição. Vai jogar o Estadual. Minha maior demanda de contratos é janeiro porque vão começar os estaduais. Em janeiro registramos 5 mil contratos. Os caras fazem contrato até o fim do estadual. E se sai do Estadual, rescinde. Se ele cai no meio do Estadual e não joga mais, rescinde o contrato e manda embora. É a realidade do país. O cara joga dois, três jogos, sai de um clube e vai para outro jogar uma competição em outro estado. Tenta jogar uma Série C, Série D, alguma copinha que existem em alguns estados no segundo semestre. É que no futebol o pessoal acha que todo mundo vai ficar rico. Não dá 1% que vai ser bem sucedido no futebol. Todo mundo quer ser jogador, chega lá e ver que não vai dar. E salários para ganhar R$ 1 mil.
ÉPOCA – Isso é importante para a Seleção Brasileira. É consenso no esporte que para achar um Neymar precisa haver uma base enorme de gente em atividade. Em última instância isso chega à seleção. A CBF vê isso como um problema estrutural? Pelo viés econômico?
Buzzoni –
 A gente está tentando fortalecer a base, os clubes. O pessoal deixou de fazer a base, então um dos itens do regulamento de licenciamento é ter a base. Para um clube grande jogar a Série A tem que participar das competições da base nos três níveis: sub-15, sub-17, sub-20. A mesma coisa para o regulamento de registro de clubes. Tem que ter base.
ÉPOCA – Isso ajuda a afastar o empresário que usa um clube apenas como hospedeiro para burlar as regras da Fifa e da CBF?
Buzzoni – 
O grande problema que a gente tinha antes é que o cara queria ser profissional para vender jogador. A gente não quer isso. Futebol é negócio? É negócio, mas futebol é primeiro desportivo. A gente quer que ele participe de competições, revele jogadores. Não é só virar um balcão de negócios e botar jogador para tentar vender e ganhar um dinheiro. A gente quer que ele jogue, invista no futebol. Terminou o TPO para investir no futebol. Tem que ter um centro de treinamento. Tem que se adaptar à realidade. Não adianta ter campinho de terra, uma sala e dizer que é clube profissional. Como tem muitos no país. Você tem 700 hoje que estão ativos, que estão no sistema da CBF. A CBF tem registrados mais de 7 mil clubes que não estão ativos. Que não participam.
ÉPOCA – Quais empecilhos a CBF encontra ao regulamentar o futebol?
Buzzoni –
 A gente tem muitas regras que a gente coloca e tem questões trabalhistas. Uma das maiores dificuldades na transferência ponte é proibir o jogador de jogar. Um caso emblemático é que a Fifa exige que o cara só jogue por dois clubes numa temporada. Pode se transferir três vezes, mas jogar só em dois. Se seguirmos à risca, mato o futebol no Brasil. O cara joga dois meses, pula para outro. Se seguir a regra da Fifa, ele vai na Justiça do Trabalho, e o cara diz que eu tenho que registrar. É a regra da Fifa. A CBF está embaixo da Fifa. Limitamos em competições da CBF, então se jogar um Estadual não interfere. É um problema.

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