TIME DA 2ª DIVISÃO NA CHINA INVESTE PESADO PARA CONTRATAR BRASILEIROS. SAIBA QUAIS SÃO OS PLANOS DO PRESIDENTE DO CLUBE PARA TORNAR O TIME UMA POTÊNCIA NA ÁSIA
Um time de futebol da segunda divisão da China, país que disputou apenas uma Copa do Mundo na história, está dando o quê falar no Brasil, o país do futebol. O Tianjin Quanjian contratou o camisa 10 do atual campeão brasileiro, Jadson, ex-Corinthians. Também contratou o ídolo do São Paulo, Luis Fabiano, e a jovem revelação do Santos, Geuvânio. Mas por que esse time da segundona chinesa tem tanto poder, hein? Por que escolheu o técnico Vanderlei Luxemburgopara iniciar um projeto audacioso e milionário, que visa chegar ao topo do futebol asiático? O GloboEsporte.com acompanha a pré-temporada do clube em Atibaia, no interior de São Paulo. E apresenta abaixo um perfil para o torcedor descobrir, afinal de contas, quem é esse tal de Tianjin Quanjian?
QUE CLUBE É ESSE?
O Tianjin Quanjian Football Club está localizado na cidade de Tianjin, situada 140 km a sudeste da capital Pequim. É uma das maiores cidades da China, com quase 15 milhões de habitantes (São Paulo tem mais de 11 milhões, de acordo com o IBGE). Polo industrial e um dos principais portos do norte da China, Tianjin é uma das quatro cidades do país com status de província, ao lado de Pequim, Xangai e Chongqing.
O clube de futebol foi fundado em 2006, com o nome de Tianjin Songjiang. Mudou para o atual nome em 2015, quando foi comprado pelo empresário Shu Yuhui, dono da Quanjian Group. Antes de ter o próprio time, Shu investia em publicidade em outra equipe do município, o Tianjin Teda, que está na primeira divisão. O moderno estádio do time tem capacidade para 40 mil torcedores. Trata-se de uma arena nova, um Centro Olímpico construído visando as Olimpíadas de Pequim. Recentemente, o governo assinou um acordo com o presidente do Tianjin Quanjian e cedeu o espaço para o time. Outro estádio da cidade, o Tianjin Tuanbo Football, tem capacidade para 22 mil pessoas.
QUEM É O DONO?
O Quanjian Group atua na área da saúde. Entre os empreendimentos, conta com uma rede de hospitais especializada no combate ao câncer. Também comercializa cosméticos de beleza, remédios e possui uma instituição de pesquisa na área da saúde. De acordo com o site oficial do grupo, o faturamento anual da empresa passou dos 10 milhões de yuans em 2015 (cerca de R$ 16 milhões).
O milionário Shu Yuhui é apaixonado por futebol e quer transformar o Tianjin Quanjian em uma potência asiática. Fã de Vanderlei Luxemburgo, procurou o treinador por conhecer sua trajetória, com passagens por Real Madrid e pela seleção brasileira.
– Recebi propostas de outros clubes, times da primeira divisão. Mas o projeto do Tianjin me atraiu. O presidente quer chegar ao topo e deu total liberdade para implantarmos nossas ideias. Estou levando mais de 10 profissionais brasileiros para lá, desde médicos, fisioterapeutas, nutricionistas, tudo para passarmos nosso conhecimento. O objetivo é deixar um legado para o futebol chinês. Eles querem sediar uma Copa do Mundo e brigar de igual pra igual – conta Vanderlei Luxemburgo, que tem contrato de um ano, renovável por mais dois.
CRIAR DO ZERO?
O manager do Tianjin Quanjian é o brasileiro Gabriel Skinner, que trabalhava no Flamengo e que foi indicado por Luxemburgo para a função. Skinner explica que o projeto apresentado para Luxa tem a proposta de criar um clube "do zero", a partir da segunda divisão chinesa, com total liberdade para o professor dentro e fora das quatro linhas.
– O presidente não quer só montar uma equipe vencedora, ele quer montar um clube vencedor, quer ter categorias de base, tudo. Ele sabe que o Vanderlei é uma pessoa que sempre gosta disso, sempre fala em projeto, em ser headcoach. A intenção é deixar um legado, criar um clube de futebol com o nosso conhecimento – explicou o manager.
As cores do Tianjin Quanjian são azul e vermelho. Por enquanto, o time não tem mascote, apelido, nem hino oficial. Todos esses detalhes básicos estão no planejamento da equipe de Luxemburgo para a temporada. Além da segunda divisão, o time vai disputar a Copa da China (em formato de mata-mata, em moldes semelhantes aos da Copa do Brasil).
Os uniformes de treinos e de jogos da equipe são confeccionados com material da Nike. A empresa norte-americana, porém, não é a fornecedora do time. O Tianjin tem uma parceria com a fornecedora para compra dos materiais. Na China, todas as equipes da primeira divisão utilizam material da Nike por causa de um acordo entre a federação que organiza o futebol no país e a empresa. No entanto, na segunda divisão, os clubes são livres para escolher um fornecedor.
QUAL É O ORÇAMENTO?
Jadson custou cinco milhões de euros (R$ 21,2 milhões) e vai receber salário de mais de R$ 1 milhão por mês. Geuvânio custou 11 milhões de euros (R$ 48 milhões), a 11ª contratação mais cara de 2016, e vai receber 2,7 milhões de euros por ano (cerca de R$ 12 milhões). As contratações do time chinês foram escolhas de Luxemburgo. Mas, com valores tão altos, será que o time teria grana para contratar um craque como Messi, por exemplo?
– Pode contratar o Messi, o problema é que o Messi não quer jogar na China. E o jogador brasileiro, com as estruturas dos clubes daqui, aceitam o projeto – contou Maurício Copertino, auxiliar de Vanderlei Luxemburgo no clube chinês.
– Não trabalhamos com orçamento definido. Trabalhamos apresentando para o presidente o que nós necessitamos. E ele vem dando total apoio e respaldo (...) Investimos 1 milhão de dólares em equipamentos para recuperação dos jogadores. Coisa que tentei implantar, por exemplo, quando estive no Flamengo, mas que nunca consegui. É tudo de primeira linha. Com investimento na parte de musculação, fisioterapia, estamos montando uma estrutura que não deixa a desejar até comparando com os melhores clubes da Europa – explicou o manager Skinner.
De acordo com o site Transfer Markt, o Tianjin Quanjian gastou 40,60 milhões de euros na janela de transferência (cerca de R$ 160 milhões). Geuvânio foi a contratação mais cara. Atrás dele aparecem Lu Zhang (goleiro), Ke Sun (meia) e Jadson. A lista ainda conta com o volante Xuri Chao, do Guangzhou Evergrande, time do técnico Felipão, que custou 4,20 milhões de euros.
Confira abaixo as principais contratações do Tianjin Quanjian para a temporada:
POR QUE ESSE TRIO BRASILEIRO?
Jadson, 32 anos, camisa 10 e campeão do brasileiro com o Corinthians. Luis Fabiano, 35 anos, camisa 9 e ídolo do São Paulo. Geuvânio, 23 anos, camisa 11 e jovem promessa do Santos. Por que será que Luxemburgo optou por esse trio ofensivo para reforçar o Tianjin Quanjian, hein?
– O Vanderlei teve todo o cuidado, junto com a comissão técnica, para escolher cada jogador. Tivemos, em primeiro lugar, o cuidado de ver o que nós tínhamos em mãos. Precisávamos entender o que tínhamos, ver as carências e ver como conquistaríamos o objetivo de ir para a primeira divisão. Esses jogadores foram escolhidos com muita calma. Tínhamos uma carência ofensiva e, por isso, que chegamos nesses nomes: um artilheiro, um meia criativo e um atacante de velocidade – justificou Gabriel Skinner.
Do elenco que está em Atibaia, no interior de São Paulo, Luxemburgo ainda fará cortes. A ideia é reforçar a equipe com jogadores que atuam na primeira divisão do futebol chinês.
– Nosso presidente sinalizou que vamos contratar cinco jogadores "top", de nível da primeira divisão: tem um goleiro, que é o terceiro goleiro da seleção. Temos um volante mapeado, que é da seleção, entre outras opções – acrescentou.
COMO FICAM OS BRASILEIROS LÁ?
Com toda estrutura do clube ainda sendo montada por Vanderlei Luxemburgo, fica a dúvida sobre como os brasileiros ficarão acomodados em Tianjin. Cada atleta terá uma casa para hospedar sua família. As casas ficam localizadas em um mesmo condomínio fechado de alto padrão. A comissão técnica de Luxemburgo, ao todo, conta com 11 profissionais (médicos, fisioterapeutas, preparadores, nutricionistas, auxiliares, etc).
Uma notícia negativa para os brasileiros é que Tianjin sofre com a poluição. De acordo com a ONG Greenpeace, Tianjin é a 11ª cidade mais poluída da China.
– A poluição é um problema, é uma cidade industrial. Mas tivemos todos os cuidados para os jogadores se sentirem em casa. Vão ficar todos no mesmo condomínio, em casas bem confortáveis, onde moram bastante estrangeiros. A comissão técnica, a princípio, ficará em um apart-hotel. Você encontra grandes redes internacionais de supermercado, grandes companhias automotivas, shoppings, tem de tudo – contou Skinner.
SEGUNDA DIVISÃO CHINESA
A Chinese League One, a segunda divisão da China, conta com 16 equipes, que se enfrentam em turno e returno. Os dois primeiros colocados sobem para a primeira divisão (Chinese Super League) e os dois últimos são rebaixados. Para jogos fora de casa, a delegação viajará, de preferência, de avião. Em cidades com aeroportos distantes, a viagem será completada de ônibus. O analista de desempenho de Luxemburgo, Bebeto, será um dos responsáveis por mapear os adversários do Tianjin Quanjian, assistindo aos principais jogos da segunda divisão.
– A segunda divisão é limitada tecnicamente. Um jogo de muita força de algumas equipes, outras frágeis fisicamente (...) É um jogo muito justo, igual, e o que faz a diferença são os estrangeiros – analisou o auxiliar Maurício Copertino.
– Mapeamos tudo na segunda divisão. Tem um clube que quase subiu no ano passado e um clube que desceu. Sabemos quais são os clubes mais fortes, que serão nossos concorrentes. Mas nenhum deles tem uma estrela estrangeira, como nós, não estão investindo tanto assim, não – explicou Gabriel Skinner.
De acordo com o Transfer Markt, a segunda divisão na China vai contar com 54 jogadores estrangeiros. Além do trio do Tianjin Quanjian, a competição terá outros 10 brasileiros (entre eles Biro Biro, ex-Ponte Preta e Fluminense). O Brasil é o país que mais cede estrangeiros para a Segundona, seguido de Hong Kong (oito) e Colômbia (quatro).
O valor de mercado do Tianjin Quanjian na competição é de 15,15 milhões de euros (cerca de R$ 67,34 milhões), o maior valor da segunda divisão (seria o sétimo maior na divisão de elite da China). No ranking da Segundona, quem aparece na sequência em valor de mercado é o Nangchang Bayi, cerca de R$ 29,91 milhões.
META DO TIANJIN QUANJIAN
A meta do Tianjin Quanjian, a longo prazo, é se tornar a principal força do futebol asiático. O primeiro objetivo, claro, é chegar à primeira divisão. Mas Luxemburgo sabe que faturar uma Copa da China poderia ser um diferencial e tanto para o clube. Entre os objetivos dos brasileiros, temos as metas de Luis Fabiano e Geuvânio: Fabuloso quer chegar aos 500 gols na carreira e o jovem ex-Peixe quer se tornar o Melhor Jogador da Ásia.
– O Geuvânio tem potencial pra ser o melhor jogador da Ásia e chamar a atenção da seleção brasileira (...) Vamos com um passo de cada vez. Mas com a meta de chegar ao topo. O presidente da China (Xi Jinping) gosta muito de futebol. Ele introduziu nos colégios a obrigatoriedade do futebol. Aqui no Brasil, que é o país do futebol, não tem isso. O governo dá incentivo para os empresários investirem no futebol. E vamos pra lá pra ensinar, pra levar nosso conhecimento (...) Em 20 anos eles querem disputar uma Copa do Mundo e sediar uma Copa. Se continuarem assim, vão chegar lá em alto nível – comentou Luxemburgo.
OBSTÁCULO: PREPARAÇÃO FÍSICA
Um dos obstáculos já encarados pelos brasileiros na tentativa de desenvolver o futebol na China é a preparação física. Luxemburgo tem realizado poucos treinos táticos. O principal foco está na parte física e depois na parte técnica. Sobre a questão física, os jogadores do Tianjin Quanjian não estão acostumados a treinar em dois períodos, como no Brasil. Em Atibaia, o desgaste dos atletas é nítido com o decorrer das atividades. Em jogo-treino contra o Bragantino, por exemplo, a equipe caiu muito de produção na segunda etapa.
– Eles são dedicados. Mas estamos apresentando todo o trabalho, pois não estão acostumados com esses treinos lá na China. Então temos que ter calma – conta o preparador físico Diogo Linhares.
globo.com
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